As palavras estavam presas na garganta dele, sufocando-o, claro que algumas frases soltas escapavam pela garganta e alcançavam os olhos e o pior é a certeza que ela podia compreender tudo o que estava lhe afligindo, passou aquelas últimas horas reunindo coragem para olhar no fundo dos olhos dela e falar absolutamente tudo que havia planejado durante semanas, mas como sempre acontecia sentiu-se desarmar pela franqueza daqueles olhos castanhos.
Buscando reorganizar os pensamentos, observou as sardas que ela tinha no nariz e as covinhas que se formavam quando ela sorria entretida com a história, como ela conseguia se perder facilmente nas paginas de um livro ele jamais entenderia, nem os seus rompantes e mudanças de humor e muito menos como ela havia se tornado alguém tão especial em sua vida. Respirou fundo mas quando pensou estar pronto defrontou-se com um olhar inquisidor e novamente as palavras se perderam...
Caminhavam pela rua lentamente, cada um perdido em seus próprios pensamentos, mas no mesmo andar compassado de duas pessoas acostumadas a caminhar juntos, ela queria fazer milhares de perguntas, sobre as decisões que ele tomara e principalmente que lhe explicasse como seria viver sem ele, sem as horas de conversa e o riso fácil, sem o abraço perfeito e as brigas pela última bala do pacote. Mas mesmo que fizesse todas essas perguntas e muitas mais, no fundo sabia que não haveria respostas suficiente para a tristeza da separação, ele decidira partir e isso era irremediável.
No dia da partida ele passou na casa dela, não era muito bom com despedidas e por mais que ela tivesse insistido em fazer uma festa ou de levá-lo até a rodoviária ele convenceu que a melhor despedida seria terem um momento só deles como os muitos que haviam compartilhado ao longo dos anos. Passaram a manhã toda conversando e ouvindo música, evitaram ao máximo a estranheza de que a partir do dia seguinte não teriam um momento como esse por tempo indeterminado ou talvez, nunca mais.







