Ela encarou o espelho e os olhos maquiados a encararam de volta, as olheiras mal disfarçadas sob a base, os cílios espessos devido ao rímel em excesso e uma lágrima que parecia presa ao canto do olho, lembrou-se das noites insones de pranto abundante, das mil e uma lágrimas que verteu para aliviar o aperto no peito, porém sem resultados. "Aceita que dói menos" ouviu o sussurro em seu ouvido, como um sopro do passado e se perguntou se ele acreditava naquelas palavras mentirosas, ouviu também o riso debochado dele, enquanto uma única lágrima escapava por entre os cílios traçando um risco frio e negro em sua face. Floresceu a raiva, culpou o reflexo do espelho, enxugou com delicadeza a maquiagem borrada, examinou mais uma vez o rosto do espelho, empertigou-se e com a petulância que lhe era familiar saiu do quarto com passos precisos, a noite só estava começando.
Ainda sentia seu corpo arrepiar ao se lembrar de um simples toque na pele ou mesmo da suavidade que poderia ter em um beijo, ouviu a chuva cochichando todos os seus segredos e permitiu-se, depois de tanto tempo, sentir, sentir e sentir, uma enxurrada de sentimentos a muito tempo represados e guardados nas profundezas de seu coração fundiram-se em um só sentimento, um ao qual jamais saberia nomear e nem mesmo saberia descrever.
Deixou os sentimentos escoarem, tão frios quanto as gotas da chuva e tão velozes quanto o vento que se ouvia, deixou eles rolarem com força de um rio bravio ou da ressaca do mar. Deixou a chuva lavar sua alma e extirpar cada pedaço que ainda estava impregnado com o medo. Deixou os sentimentos livres para poder encontrar a própria liberdade, sem perceber havia se tornado refém do próprio coração ferido e do que ali queria manter trancafiado, esqueceu-se que os sentimentos ruins devem ser deixados para trás e os bons compartilhados...
Abriu as janelas e esperou pelo amanhecer, sentiu no vento ainda o cheiro da chuva e o seu frescor, inspirou fundo, sentiu o ar preencher e revitalizar seu corpo, inspirou novamente, como nunca havia feito antes, inspirou o mais forte que conseguia e sentiu a leveza que havia dentro de si, os grilhões haviam sido quebrados, não havia tristezas ou mágoas, nem outro sentimento negativo, mas uma enorme e crescente esperança que despertava junto com nascer do sol.
Quando chegava ao
fundo do abismo ela já sabia o que aconteceria como um roteiro antigo que você
decora depois de muitas repetições, primeiro os pensamentos se acumulam e tudo
fica cada vez mais confuso, em seguida vem o que ela apelidou de lama, sentia como
se todas as coisas ruins presentes nela surgissem em forma pegajosa e grudassem
em sua pele, ela se sentia imunda, o pior de todos os seres como se
absolutamente tudo nela fosse feito de maldade...Eu procurava por alguém que entendesse o que eu dizia com o olhar, que entendesse que eu posso acordar feliz e ir dormir chorando sem nenhum motivo aparente. Eu procurava pela pessoa que saberia de cor todas as minhas músicas favoritas, mesmo que não gostasse de alguma delas, e que me acompanharia aos diversos shows, nos mais variados teatros e sempre que possível me levaria ao cinema.
Eu procurava por alguém que iria me abraçar sempre que eu estivesse carente ou somente para me mostrar que está ao meu lado e que quando eu acordasse chorando no meio da noite seguraria a minha mão, me acalmaria com cafuné enquanto meus pesadelos se tornassem sonhos.
Eu procurei pela pessoa que saberia agradar todos os meus gostos, que desculparia minhas manias bobas e que gostaria de se deitar num parque só para olhar o céu... E que além de concordar comigo no final das contas também dividiria o último pedaço de chocolate.
Eu procurei por alguém que teria coragem de me dar broncas quando eu merecesse, mesmo que eu demorasse a perceber e muito teimosa para assumir, e que me desse conselhos quando eu sentisse que o mundo está de pernas para o ar e tudo fica meio sem sentido.
Eu queria encontrar aquela pessoa que sempre consegue me deixar envergonhada quando eu menos espero e que me faça rir quando eu tiver vontade de chorar. Eu queria encontrar alguém pra quem eu pudesse contar todos os meus segredos, alguém que ri dos meus comentários bobos, eu procurei com quem discutir por motivos tolos, rir de idiotices e brigar por teimosia, mas principalmente eu queria que essa pessoa me ensinasse coisas novas, inclusive como ver o mundo com outros olhos...
Acordou assustada, tinha ouvido alguma coisa, a claridade alaranjada da luz da rua entrava pelas frestas da janela, da mesma forma que o sol havia entrado, não se lembrava de ter visto anoitecer, prendeu a respiração tentando encontrar o som que a acordara, mas só ouviu sons longínquos, claro, quando se mora numa casa imensa, sozinha que sons poderiam haver? Mesmo assim podia jurar que tinha ouvido passos...Levantou da cama devagar, esperou os olhos acostumarem com a penumbra e caminhou até a porta, girou a maçaneta tentando não fazer barulho e prosseguiu até a cozinha, pé ante pé atravessando o corredor, atenta a qualquer outro barulho, a pilha de louça suja era imensa e toda a bagunça continuava no mesmo lugar, abriu a geladeira e pegou uma lata de refrigerante tomou metade, encostada na pia e depois largou em cima da mesa do corredor quando voltava para o quarto.
Não queria voltar a dormir, talvez pelas horas excedentes de sono ou apenas pela inquietante sensação de solidão que se apoderava dela centímetro por centímetro, decidiu ouvir música, o silêncio mostrava-se perturbador demais. Colocou os fones no ouvido e aumentou o volume até o último, infelizmente, com as músicas vieram as lembranças e com as lembranças vieram as lágrimas, imagens do passado e do futuro se fundiam, planos que jamais seriam concretizados e doces lembranças (quase) esquecidas. Ficou jogada na cama, sendo arrastada lentamente para o turbilhão de sentimentos do qual estava fugindo há dias, mas finalmente percebeu que é impossível fugir de si mesmo.
Eu tenho tanta coisa para te dizer, mas não sei como, não sou corajosa ao ponto de me expor completamente para você, até porque nós dois já vimos que nosso sentimentos são conflituosos e que na hora da sinceridade só machucamos a nós mesmos. Ainda assim, construímos uma história juntos e mesmo daqui a séculos, você terá feito parte da minha vida, sei que seguiremos estradas diferentes (sim eu sempre penso na vida como uma estrada, é mais fácil pra mim) e sei que já começamos a fazer isso, inevitável depois de tantas tribulações...
Eu queria poder pedir desculpas, assim sei que você se sentiria melhor em relação a mim, mas sou incapaz de pedir desculpas sem me arrepender de verdade e não me sinto arrependida de nada, talvez tenha me excedido em algum momento, mas todas as outras atitudes não foram partes do meu comportamento habitual e eu não mudaria isso, e naquele momento eu realmente acreditava que você estava errado e eu dona da razão, mas como a vida é engraçada vi inúmeras situações e não acho que eu não era a pessoa apropriada para definir quem estava certo ou errado.Obs.: Tenho a sensação de que o texto está incompleto, mas resolvi compartilhar mesmo assim...
"Tantas coisas passando, flutuando, correndo pelos meus pensamentos... Me encontro agora perdida, sem rumo, sem volta, já não corro porque não há mais tempo e porque não tenho mais que acompanhar seus passos tão incertos quanto os meus, mesmo assim no fundo sei que se puxar o fio do novelo ainda encontrarei o caminho até você, mas tenho medo pois uma pergunta ainda paira... Será que você ainda me espera?"
Engraçado como as coisas acontecem, você conhece uma pessoa e ela é apenas mais uma, um colega, um conhecido, de repente você acorda um dia e descobre o quanto essa pessoa é especial na sua vida e quanta diferença faz um abraço ou um sms que seja, os sorrisos trocados, as brincadeiras bobas ou as lágrimas compartilhadas. Quantas emoções, alegres ou tristes, reprimidas ou trocadas, afinal nem sempre dá pra controlar a raiva e alguns desentendimentos são normais em todas as relações.
Nunca dá para saber como vamos perder alguém , pode ser de maneira violenta ou simplesmente uma ruptura sem razões aparentes, mas de toda forma é sempre inesperado e sempre dói. Claro que o sentimento de perda sempre faz o coração ficar fragilizado, talvez porque nós, seres humanos, estamos tão acostumados com a possessão das coisas e acabamos esquecendo que no fundo as pessoas não nos pertencem... Mas quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração??
Como senti falta dos meus devaneios, onde dispo minhas máscaras e deixo meus sentimentos fluirem, esses tão contraditórios e disparatados que nem mesmo eu os compreendo em sua totalidade. Senti falta da sensação de liberdade que minhas próprias palavras me propiciam... Ah como senti falta...
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| "São pequenas coisas que vamos descobrindo por esse caminho tortuoso que traçamos..." |
Descobri que o mundo não é perfeito, que há tanto sofrimento e solidão, desgostos e torturas, mas que o dia sempre nasce e a esperança se renova, por uma razão ou outra.
Descobri que um mundo novo se abre toda vez que você se dispõe, toda vez que você olha pra vida da forma certa e quando você menos espera o fantástico já aconteceu.
Quando me fechei em pequenos mundos (conhecidos como livros) descobri que você tem que ter coragem para encarar os próprios sentimentos, que a morte tem muitas faces, que a seca e a fome são carrascos cruéis, e que nem sempre você encontra o final feliz (só que na vida acontece com mais frequência)...
Eu descobri que quando você se sente perdido sempre aparece alguém pra te ajudar, mesmo que você não perceba no começo, e quando se dá conta essa pessoa entro tanto em sua vida que faz parte de você... Então o tempo vai passando e você percebe que tem vários pedacinhos de outras pessoas morando em você e dessa forma você sente que pode chegar a qualquer lugar...
Há sempre uma pessoa especial, descobri isso também, que entra na sua vida quando você menos espera e descobre que quer dividir a vida inteira com ela, mesmo que isso vá contra seus preceitos...
Sobre pessoas você pode descobrir muito...
Como defeitos todos tem e saber aceitar e conviver com o dos outros ou ajudá-los a deixá-los de lado é o primeiro passo para concertar os próprios...
Erros sempre serão cometidos e julgar uma pessoa por causa deles não te faz melhor...
Um sorriso, um abraço, um gesto mínimo de demonstração de afeto pode mudar um dia e até mesmo uma vida...
"Acho que já descobri muito, mas ainda assim não o suficiente.. No fim de tudo, a verdade é que descobrimos muitas coisas, mas infelizmente aprendemos quase nada com elas..."
Eu sonhava com todo meu coração, e fazia dos meus sonhos brotar a alegria contagiante que nem mesmo eu sabia de onde vinha, alegria essa que tinha por dom transformar-se em felicidade e preencher outros corações. Dom de Beatriz, aquela que trás alegria? Dom de menina, sempre sorrindo? Dom de ver o mundo com olhos doces! Dom de ver o doce que a vida tem...
Mas passou-se o doce tempo, e com ele foi toda a alegria, a felicidade, a inocência da menina, deixando espaço para outros sentimentos não tão nobres... Vi a tristeza nublar meus olhos, enquanto a decepção pairava em minha cabeça, vi o céu tingir-se de vermelho quando a raiva tomou conta de cada pedacinho faltante. E o conformismo, junto com a decepção mudaram meus rumos e caminhos, me jogando em estradas tortuosas e escuras.
Por fim, onde habitava a felicidade, restou apenas vazio, de repente desaprendi como se sorria, ou até mesmo porque um dia eu sorri. Lendo isso você pensará, que triste deve ser, mas não, na verdade é como a ausência de algo que você não tinha certeza que estava ali, é um sentimento desgastado, amarelo como uma foto antiga.
É a simples constatação da ausência, o Vazio.
"Parecia que era minha aquela solidão..." |
Ela acompanha eles, sem nem mesmo saber porque, simplesmente seguia, tivera tantos motivos pra segui-los, mas nesse momento ela queria estar longe dali. Queria poder ordenar seus pensamentos, ficar longe das pessoas, talvez parar de pensar por algumas horas, mas tudo o que conseguia era soterrada por uma avalanche de informações, coisas a fazer, coisas a dizer, responsabilidades ou o quer que fosse.
Havia tanta coisa na cabeça dela que seus pensamentos andavam meio anuviados, ela também sentia uma tristeza tamanha a qual não estava acostuma, isso a desgastava por dentro e por fora, podendo ser visto na vontade repentina que ela sentia de se isolar ou nas olheiras tão profundas que a deixava com um ar abatido e cansado. Mas é claro que ela estava, de fato, abatida e cansada.
Entremeio a toda essa confusão emocional e mental da garota ela se culpava por tudo, relembrava as coisas que se arrependera de ter feito, chorava. Apesar de tentar se conter, de não querer chorar, de não querer que ninguém soubesse o que ela sente, ela fraquejava, uma pequena distração e ela sentia as lágrimas descerem pelo seu rosto, e antes que alguém pudesse vê-la, as enxugava e fingia que nada aconteceu. Mas isso era apenas orgulho. Sempre fora assim, queria mostrar que não precisava dos outro, queria provar isso para os outros e principalmente pra ela mesma, apesar de ser mentira.
Em contra partida ela se sentia totalmente dependente de qualquer pessoa a que se afeiçoava, talvez por isso fosse tão possessiva e sentia ciúmes de todos que ela considerava importantes, apesar de achar, o ciúme, uma bobagem. Mas isso também fazia com que ela se sentisse responsável pelo que as pessoas sentiam, e tentava fazê-las sorrir e agradá-las sempre, escondendo com o riso toda a tristeza indefinível da menina...
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"Onde estão as cores? Elas só existem quando você vê com o coração." |
Tudo estava cinza, apesar de se lembrar do quão bonito e colorido tudo parecia pouco tempo atrás. Lembrava de estar sorrindo e de sentir-se bem, que as coisa estavam em seus devidos lugares e tudo fazia sentido, tudo cheio de vida e alegre...
Agora o cinza parecia deixar tudo sem graça.
Parecia que estava grudado em tudo e, pior que isso, que a acompanhava, não importando se fosso em uma música, no caminho que tinha que percorrer ou até mesmo na comida, tudo estava no mesmo tom, seguindo a mesma apática e tristonha harmonia.
Cansada e abatida, se perguntava o que tinha acontecido, porque tudo mudara? Não conseguia entender onde havia errado, em que ponto tudo culminou para aquele momento?
Estava triste sim e de que outra forma estaria? Cansou-se das palavras vazias e das respostas hipócritas, cansou-se do faz-de-conta, de que lhe adianta fingir agora?
Entre borrões e riscos, rabiscos e cores eu não via forma alguma, ou talvez fingisse não ver. Queria não ver a menina em pedaços, pra todos os lados, como retalhos jogados ao léu. Triste? Talvez...
A tristeza era refletida nos olhos luminosos da garota, transmitiam tanta luz, alegria e até mesmo paz, mas por trás desse brilho, pode-se ver a tristeza velada e contínua, intermitente vertendo dos olhos da menina, basta ser, um observador para notar e você poderá ver as notas dissonantes que bailam entorno de quase tudo que vemos, ouvimos e falamos.
Pena não saber mais onde começa menina e acaba retalho, outrora dois, hoje são partes de um todo, tal qual a colcha de retalhos, agora eis a menina. Quem dera a menina fosse tão bela quanto a colcha, mas já não é, bem poderia dizer que não são retalhos e sim farrapos que compõem a menina.
Pobre menina, triste menina, bela menina.
A beleza da menina já não é a ingenuidade, nem a doçura, também já não havia espaço para sentimentos tão infantes na menina-moça. E de repente restou apenas o vazio, sem cores e rabiscos, sem riscos e borrões, sem menina, sem pedaços, sem retalhos ou farrapos...




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