A música reverberava de tão alta, a melancolia escorria das palavras e da própria melodia era tristeza em forma de música, era música em forma de tristeza, desligou-se do mundo e conectou-se a música, ela refletia seu estado naquele momento o pijama amassado após os incontáveis dias jogada na cama, a única companhia que tinha era a solidão, riu de si mesma, notou que se tornara uma piada pronta, quebrara as regras que havia criado e fez exatamente o que jurou que não faria: desistiu.

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O vazio era imenso, tão grande que parecia que um buraco negro havia sido aberto em seu peito, a sensação de dormência se espalhava por todo o corpo e já sabia que nem mesmo as lágrimas bastariam nesse momento... Ah como desejava que esses momentos não acontecessem nunca, mas a montanha russa que eram os seus sentimentos tinha vontade própria e quando despencavam ela se tornava apenas uma observadora da queda livre no abismo...

Quando chegava ao fundo do abismo ela já sabia o que aconteceria como um roteiro antigo que você decora depois de muitas repetições, primeiro os pensamentos se acumulam e tudo fica cada vez mais confuso, em seguida vem o que ela apelidou de lama, sentia como se todas as coisas ruins presentes nela surgissem em forma pegajosa e grudassem em sua pele, ela se sentia imunda, o pior de todos os seres como se absolutamente tudo nela fosse feito de maldade...

Então vinha o pranto, um choro desesperado que fazia o corpo inteiro se contrair, a garganta e o nariz ficarem congestionados e a cabeça ter um latejar incessante e mesmo quando não restasse mais forças para chorar o latejar continuaria por horas até a respiração normalizar e ela cair no sono, mas não um sono reparador, um sono atormentado por sombras onde não há espaço para descanso...

A claridade invade o quarto, já passa das onze da manhã e o sol que entra pela janela reflete em seus cabelos espalhados no travesseiro, um observador acharia a cena bonita, talvez seja o calor do sol ou os sons da rua que a fazem despertar quebrando o encanto, mesmo tentando se ater ao mundo dos sonhos ela imerge aos pesadelos reais. Assim que os olhos se abrem a cabeça dói e a impressão que tem é de ter batido a cabeça na parede a noite toda, mas ela sabe que é só o efeito do choro e do álcool, depois de muito esforço levanta-se tropeçando nos lençóis e vai em direção ao banheiro largando as roupas amassadas e suadas pelo caminho.

O banho é longo e reconfortante, a água quente escorre pelo seu corpo apagando os vestígios da noite anterior, encosta a cabeça contra o azulejo frio da parede tentando amenizar o pulsar nas têmporas e reorganizar os pensamentos, ou melhor os sentimentos.. De repente ela nota que ainda se sente muito frágil, tanto sentimentalismo pesava em suas costas e quando deu por si já estava encolhida no chão do banheiro soluçando, esperou até sentir que não havia mais nada em si, lentamente deixou o vazio se expandir pelo seu corpo, revestindo cada pedacinho novamente, afinal era apenas mais um buraco para a sua coleção...


Ela estava deitada e o sol entrava pela janela, já era tarde, ela sabia, mesmo assim pesos invisíveis faziam com que fosse impossível levantar-se da cama. Mantinha os olhos fechados, mas por de trás deles um turbilhão de pensamentos trespassava-lhe a mente, eram questões que precisavam de uma resposta, coisas que deveria estar fazendo naquele momento, coisas que havia esquecido de fazer, pessoas que queria ver e que certamente faria bem ela ver naquele momento, lembranças da semana, lembranças de anos passados, pensamentos, sentimentos e sensações, saltavam de um para outro fazendo associações que conscientemente seria impossível de fazer, a mente é um lugar estranho.
Finalmente respirou fundo e abriu os olhos, primeiro viu o teto pintado de branco, sabia que deveria olhar para o relógio, mas era mais agradável encarar o teto, reuniu coragem e lentamente virou a cabeça em direção ao relógio que ficava na comoda do outro lado do quarto, mas ao invés de ver a hora, viu números desconexos piscando, sinal de que a luz havia acabado em algum momento entre as incontáveis horas que estava na cama. Já que não sabia que horas eram, decidiu que não se preocuparia e tornou a fechar os olhos. Agora podia ver os pensamentos como fotos sendo passadas muito rapidamente, de certa forma chegavam a ser engraçados.
Acordou assustada, tinha ouvido alguma coisa, a claridade alaranjada da luz da rua entrava pelas frestas da janela, da mesma forma que o sol havia entrado, não se lembrava de ter visto anoitecer, prendeu a respiração tentando encontrar o som que a acordara, mas só ouviu sons longínquos, claro, quando se mora numa casa imensa, sozinha que sons poderiam haver? Mesmo assim podia jurar que tinha ouvido passos...
Levantou da cama devagar, esperou os olhos acostumarem com a penumbra e caminhou até a porta, girou a maçaneta tentando não fazer barulho e prosseguiu até a cozinha, pé ante pé atravessando o corredor, atenta a qualquer outro barulho, a pilha de louça suja era imensa e toda a bagunça continuava no mesmo lugar, abriu a geladeira e pegou uma lata de refrigerante tomou metade, encostada na pia e depois largou em cima da mesa do corredor quando voltava para o quarto.
Não queria voltar a dormir, talvez pelas horas excedentes de sono ou apenas pela inquietante sensação de solidão que se apoderava dela centímetro por centímetro, decidiu ouvir música, o silêncio mostrava-se perturbador demais. Colocou os fones no ouvido e aumentou o volume até o último, infelizmente, com as músicas vieram as lembranças e com as lembranças vieram as lágrimas, imagens do passado e do futuro se fundiam, planos que jamais seriam concretizados e doces lembranças (quase) esquecidas. Ficou jogada na cama, sendo arrastada lentamente para o turbilhão de sentimentos do qual estava fugindo há dias, mas finalmente percebeu que é impossível fugir de si mesmo.





"Parecia que era minha aquela solidão..."
  Ela caminhava pela multidão, ouvia as risadas e conversas animadas que outrora seriam contagiantes, quando ela se sentia parte daquela multidão, mas não dessa vez. Nesse dia ela estava a margem, tudo estava meio difuso, desfocado, as coisas não estavam no lugar, ela não estava no lugar.
Ela acompanha eles, sem nem mesmo saber porque, simplesmente seguia, tivera tantos motivos pra segui-los, mas nesse momento ela queria estar longe dali. Queria poder ordenar seus pensamentos, ficar longe das pessoas, talvez parar de pensar por algumas horas, mas tudo o que conseguia era soterrada por uma avalanche de informações, coisas a fazer, coisas a dizer, responsabilidades ou o quer que fosse.

Havia tanta coisa na cabeça dela que seus pensamentos andavam meio anuviados, ela também sentia uma tristeza tamanha a qual não estava acostuma, isso a desgastava por dentro e por fora, podendo ser visto na vontade repentina que ela sentia de se isolar ou nas olheiras tão profundas que a deixava com um ar abatido e cansado. Mas é claro que ela estava, de fato, abatida e cansada.

Entremeio a toda essa confusão emocional e mental da garota ela se culpava por tudo, relembrava as coisas que se arrependera de ter feito, chorava. Apesar de tentar se conter, de não querer chorar, de não querer que ninguém soubesse o que ela sente, ela fraquejava, uma pequena distração e ela sentia as lágrimas descerem pelo seu rosto, e antes que alguém pudesse vê-la, as enxugava e fingia que nada aconteceu. Mas isso era apenas orgulho. Sempre fora assim, queria mostrar que não precisava dos outro, queria provar isso para os outros e principalmente pra ela mesma, apesar de ser mentira.

Em contra partida ela se sentia totalmente dependente de qualquer pessoa a que se afeiçoava, talvez por isso fosse tão possessiva e sentia ciúmes de todos que ela considerava importantes, apesar de achar, o ciúme, uma bobagem. Mas isso também fazia com que ela se sentisse responsável pelo que as pessoas sentiam, e tentava fazê-las sorrir e agradá-las sempre, escondendo com o riso toda a tristeza indefinível da menina...