A música reverberava de tão alta, a melancolia escorria das palavras e da própria melodia era tristeza em forma de música, era música em forma de tristeza, desligou-se do mundo e conectou-se a música, ela refletia seu estado naquele momento o pijama amassado após os incontáveis dias jogada na cama, a única companhia que tinha era a solidão, riu de si mesma, notou que se tornara uma piada pronta, quebrara as regras que havia criado e fez exatamente o que jurou que não faria: desistiu.

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Ela olhou novamente para o espelho e limpou cuidadosamente o contorno da boca, tirando o excesso do batom vermelho, novamente as palavras ecoaram em sua mente "aceita que dói menos", frase simples, seca, vazia de sentimentos, o adeus mais doloroso que poderia ter recebido, naquele momento doeu mais que um tapa na cara, quanto tempo havia se passado? As primeiras semanas foram dolorosas, dia e noite fundiam-se diante de seus olhos e ela apenas deixava-se levar pela rotina... Não, não viu o tempo passar, as semanas transformaram-se em meses e dia após dia a tristeza e a solidão acompanharam seus passos, tentou se enganar, tentou fingir que não sentia, mas às vezes em meio a madrugada despertava e rememorava e remoía e as palavras ecoavam pelas paredes do quarto silencioso "aceita que dói menos"...

Ela encarou o espelho e os olhos maquiados a encararam de volta, as olheiras mal disfarçadas sob a base, os cílios espessos devido ao rímel em excesso e uma lágrima que parecia presa ao canto do olho, lembrou-se das noites insones de pranto abundante, das mil e uma lágrimas que verteu para aliviar o aperto no peito, porém sem resultados. "Aceita que dói menos" ouviu o sussurro em seu ouvido, como um sopro do passado e se perguntou se ele acreditava naquelas palavras mentirosas, ouviu também o riso debochado dele, enquanto uma única lágrima escapava por entre os cílios traçando um risco frio e negro em sua face. Floresceu a raiva, culpou o reflexo do espelho, enxugou com delicadeza a maquiagem borrada, examinou mais uma vez o rosto do espelho, empertigou-se e com a petulância que lhe era familiar saiu do quarto com passos precisos, a noite só estava começando.

Na festa sorriu amavelmente e foi educada com todos com quem conversou, discutiu os últimos acontecimentos da política, riu das piadas infames que lhe contaram, falou sobre as tendências da moda e sobre diversos gostos musicais, dispensou com delicadeza as lisonjas e as eventuais cantadas, provou as bebidas e os canapés e quando sentiu que não mais teria força para sustentar o riso forçado e a animação fingida retirou-se à francesa. No carro fechou os olhos aproveitando os minutos de silêncio, no caminho de casa parou em um bar e comprou algumas garrafas, a noite ainda não tinha acabado... Sentada no chão da sala ela se recostava no sofá enquanto tomava a sexta dose de vodka com gelo, tinha trocado de roupa e tirado o excesso da maquiagem, deixando alguns borrões pelo caminho. "Aceita que dói menos", ouviu o eco enquanto a bebida descia por sua garganta, o problema é que nunca descobriu o que deveria aceitar... Seria a decepção, o fim, a traição inesperada ou o fato de que seus sonhos, aqueles que sonharam juntos, jamais se tornariam realidade? Imersa no álcool e nas lembranças adormeceu encolhida no sofá.

Amanheceu com a cabeça latejando e o corpo dolorido, umedeceu a boca ressecada com o último gole da garrafa que estava jogada ao lado do sofá, cambaleou até o banheiro e jogou água fria no rosto, estava prestes a entrar no chuveiro quando decidiu ir para a cama, dormiu um sono pesado, sem sonhos e acordou sentindo-se bem. Sorriu para a garota despenteada do espelho antes de entrar no chuveiro e saiu do boxe pronta pra outra, vestiu um vestido florido leve para aguentar o calor, calçou seu all star surrado e pegou seu óculos de sol preferido, decidiu dar uma caminhada, enquanto fechava a porta ouviu novamente o eco do passado "Aceita que dói menos", mas dessa vez sorriu, o passado sempre fica marcado em nós, mas o melhor é olhar para o amanhã.


Acordou com o som da chuva batendo forte na janela ou talvez fosse apenas o frio, melhor, a ausência do calor de outro corpo, a falta que fazia receber um carinho enquanto ouvia a chuva cair lá fora... Nem mesmo sabia dizer quanto tempo fazia desde a última vez, desde o último aconchego, a última troca de olhares cheia de amor e paixão. Mesmo assim a chuva trouxe de volta as lembranças, os sonhos compartilhados e as sombras que sobraram, como se todo o tempo estivessem ficado presas na imensidão do céu, e agora como por encanto libertas para se derramar por entre as frestas da janela e inundar seu sono...

Ainda sentia seu corpo arrepiar ao se lembrar de um simples toque na pele ou mesmo da suavidade que poderia ter em um beijo, ouviu a chuva cochichando todos os seus segredos e permitiu-se, depois de tanto tempo, sentir, sentir e sentir, uma enxurrada de sentimentos a muito tempo represados e guardados nas profundezas de seu coração fundiram-se em um só sentimento, um ao qual jamais saberia nomear e nem mesmo saberia descrever.

Deixou os sentimentos escoarem, tão frios quanto as gotas da chuva e tão velozes quanto o vento que se ouvia, deixou eles rolarem com força de um rio bravio ou da ressaca do mar. Deixou a chuva lavar sua alma e extirpar cada pedaço que ainda estava impregnado com o medo. Deixou os sentimentos livres para poder encontrar a própria liberdade, sem perceber havia se tornado refém do próprio coração ferido e do que ali queria manter trancafiado, esqueceu-se que os sentimentos ruins devem ser deixados para trás e os bons compartilhados...

Abriu as janelas e esperou pelo amanhecer, sentiu no vento ainda o cheiro da chuva e o seu frescor, inspirou fundo, sentiu o ar preencher e revitalizar seu corpo, inspirou novamente, como nunca havia feito antes, inspirou o mais forte que conseguia e sentiu a leveza que havia dentro de si, os grilhões haviam sido quebrados, não havia tristezas ou mágoas, nem outro sentimento negativo, mas uma enorme e crescente esperança que despertava junto com nascer do sol.


Ele dormia profundamente e por alguns segundos ela teve medo de se movimentar e quebrar o encanto daquele momento. Permaneceu de olhos fechados utilizando os outros sentidos para absorver cada segundo daquele momento, já estava acostumada com o perfume que ele exalava, sentia o movimento de seus tórax sincronizados, ouviu o som do ar entrando e saindo e os sons da manhã longínquos, o calor que emanava da pele dele era o  que a mantia aquecida. Por alguns segundos se perdeu nessas sensações até relaxar e cair novamente no sono.
Acordou num sobressalto, a cama ao seu lado estava vazia e a janela entreaberta mostrava que era um lindo dia de sol, tomou um banho rápido e vestiu a primeira camisa dele que encontrou, desceu as escadas devagar e o encontrou na sala, jogado no sofá, prestando atenção em algum documentário que passava na TV, ela sentou-se ao lado dele e pela força do hábito ele a puxou para mais perto envolvendo-a carinhosamente, ela deitou a cabeça em seu ombro e relaxou o corpo, naqueles braços era onde se sentia uma sensação indescritível de segurança como se nada pudesse alcançá-la ali...
Ela não se considerava romântica, não esperava receber flores e bombons ou que ele sempre abrisse a porta do carro, mas aos poucos foi descobrindo que o romantismo pode estar no carinho e no respeito que ele demonstrava num abraço ou naquela forma tão única que ele tinha de fazer seus corpos se encaixarem perfeitamente... Ela se pegou relembrando seus relacionamentos anteriores e (mesmo achando errado) se viu comparando, apenas para constatar que ele foi o único que fazia com que ela sentisse o mundo se encaixar... Talvez fosse isso afinal, ele sabia fazer as coisas se encaixarem,  sabia fazer seu mundo parecer seguro e completo, passou o resto do dia imersa nesses pensamentos, imersa nas lembranças...

Lembrou-se daquela primeira noite, o sono demorou a vir e as imagens rodavam em sua mente, as sensações recém vividas ainda percorriam por seu corpo, como se cada simples toque queimasse em sua pele. Só de lembrar do momento em que seus lábios de encontraram pela primeira vez sentia algo se agitar dentro de si enquanto sua pulsação acelerava, começou a recordar os acontecimentos do dia. Ela tinha certeza que cada segundo ficaria sempre gravado em sua mente, podia reviver quadro a quadro o melhor dia de sua vida, onde mundo não poderia estar mais belo...
Caminhava pela rua sorrindo sozinha e cantando a música que tocava alto em seus fones, até o calor do sol parecia na medida certa, será que estava vivendo a cena de um de seus filmes favoritos? Antes ela não acreditava nesses sentimentos tolos, nesse riso sem motivo, nessa coisa de borboletas no estômago que os romances descrevem, sempre acreditou que esse tipo de coisa "não era pra ela", aqueles amores dos seus livros favoritos não acontecem fora de suas páginas, mas ele aconteceu...

Ele não era o típico playboyzinho, nem o rebelde sem causa e nem de longe se pareceria com um mocinho do cinema, ele era um cara normal, desses que não chamam muita atenção e parecem que nunca fizeram nada de extraordinário, mas que trabalham e estudam mesmo que ainda não saibam onde vão parar... Nisso eles eram parecidos, mas na maioria das coisas eram contrários, talvez até contraditórios, havia momentos em que ela deixava o silêncio preencher o espaço entre eles, simplesmente não sabia o que dizer, tinha medo de parecer tola demais, a verdade é que nunca foi muito boa em puxar assunto, mesmo assim a companhia dele era acolhedora e só de estar perto dele ela se sentia completa, muitos dizem que os opostos se atraem mas ela descobriu que às vezes você precisa de alguém que te complete.

Depois de muitas reflexões decidiu parar de pensar em tudo aquilo, geralmente quando pensava demais em algo as coisas costumavam dar errado, então parou de pensar e deixo apenas que os sentimentos tomassem conta de si. Percebeu que estava apaixonada e sabia que naquela altura era irremediável, mas o que tem demais em esquecer um pouco dos problemas diários dentro de um abraço que fazia o mundo parecer mais correto? Qual o problema de ter um sorriso acolhedor? Nenhum. Na verdade quando alguém te completa, todos os problemas desaparecem.
Ela notou que ele tinha o sorriso mais bonito da cidade e o senso de humor de um comediante de quinta categoria, mesmo assim ria de suas piadas ruins, ele é do tipo que realmente se preocupa quando ela diz que tudo está uma droga e que quer fazer o mundo dela cada dia mais bonito... Então ela notou que estava presa num grande clichê, como se a sua grande história de amor fosse mais um filme da sessão da tarde, mas ela não se importou nem um pouco, quis mesmo aproveitar cada segundo do brilho no olhar ao cafuné, não quis se privar da felicidade de ter alguém que a fizesse sentir borboletas no estômago.


O vazio era imenso, tão grande que parecia que um buraco negro havia sido aberto em seu peito, a sensação de dormência se espalhava por todo o corpo e já sabia que nem mesmo as lágrimas bastariam nesse momento... Ah como desejava que esses momentos não acontecessem nunca, mas a montanha russa que eram os seus sentimentos tinha vontade própria e quando despencavam ela se tornava apenas uma observadora da queda livre no abismo...

Quando chegava ao fundo do abismo ela já sabia o que aconteceria como um roteiro antigo que você decora depois de muitas repetições, primeiro os pensamentos se acumulam e tudo fica cada vez mais confuso, em seguida vem o que ela apelidou de lama, sentia como se todas as coisas ruins presentes nela surgissem em forma pegajosa e grudassem em sua pele, ela se sentia imunda, o pior de todos os seres como se absolutamente tudo nela fosse feito de maldade...

Então vinha o pranto, um choro desesperado que fazia o corpo inteiro se contrair, a garganta e o nariz ficarem congestionados e a cabeça ter um latejar incessante e mesmo quando não restasse mais forças para chorar o latejar continuaria por horas até a respiração normalizar e ela cair no sono, mas não um sono reparador, um sono atormentado por sombras onde não há espaço para descanso...

A claridade invade o quarto, já passa das onze da manhã e o sol que entra pela janela reflete em seus cabelos espalhados no travesseiro, um observador acharia a cena bonita, talvez seja o calor do sol ou os sons da rua que a fazem despertar quebrando o encanto, mesmo tentando se ater ao mundo dos sonhos ela imerge aos pesadelos reais. Assim que os olhos se abrem a cabeça dói e a impressão que tem é de ter batido a cabeça na parede a noite toda, mas ela sabe que é só o efeito do choro e do álcool, depois de muito esforço levanta-se tropeçando nos lençóis e vai em direção ao banheiro largando as roupas amassadas e suadas pelo caminho.

O banho é longo e reconfortante, a água quente escorre pelo seu corpo apagando os vestígios da noite anterior, encosta a cabeça contra o azulejo frio da parede tentando amenizar o pulsar nas têmporas e reorganizar os pensamentos, ou melhor os sentimentos.. De repente ela nota que ainda se sente muito frágil, tanto sentimentalismo pesava em suas costas e quando deu por si já estava encolhida no chão do banheiro soluçando, esperou até sentir que não havia mais nada em si, lentamente deixou o vazio se expandir pelo seu corpo, revestindo cada pedacinho novamente, afinal era apenas mais um buraco para a sua coleção...



Ele era tudo o que ela queria. Simples assim.

A começar pelos cabelos escuros e bagunçados, pelo seus ombros largos e pelo gosto musical. Ele era atencioso do jeito certo, e sabia fazê-la rir, e não faltava assunto entre eles e claro ele tinha aquela cara de mau que ela sempre gostou, mas ela sabia que ele de mau não tinha nada. Passavam horas juntos que pareciam minutos, tinham tantas coisas em comum, era sempre pra ele que ela corria quando tinha algum problema e com quem queria compartilhar todas as felicidades. Ele era mais que um amigo perfeito e mais que um porto seguro, mais muito mais...

A tarde estava linda, o céu no tom certo de azul e as nuvens espalhadas com graça minimizando o efeito do sol forte de dezembro, ele estava de olhos fechados recostado embaixo da árvore e ela deitada com a cabeça em seu colo concentrada em um livro, um daqueles que não dá vontade de parar até chegar ao final. Tinham passado a manhã toda ali, ele com seus fones observando a praça com os pensamentos que ela nunca fora capaz de decifrar enquanto ela encontrava-se perdida num mundo de fantasias, como já haviam feito várias vezes.

A brisa brincava suavemente com as folhas da árvore e por um momento ela observou o contraste do verde escuro da folhagem com o céu azul claro, então percebeu que os olhos cinzentos a encaravam e por um momento sentiu-se encabular. Incrível como mesmo após anos ele ainda conseguia fazer suas bochechas arderem apenas com um olhar, incrível também os olhos cinzentos serem tão profundos. Depois de alguns segundos tentou voltar ao livro, mas era impossível se concentrar sob aquele olhar.

As palavras estavam presas na garganta dele, sufocando-o, claro que algumas frases soltas escapavam pela garganta e alcançavam os olhos e o pior é a certeza que ela podia compreender tudo o que estava lhe afligindo, passou aquelas últimas horas reunindo coragem para olhar no fundo dos olhos dela e falar absolutamente tudo que havia planejado durante semanas, mas como sempre acontecia sentiu-se desarmar pela franqueza daqueles olhos castanhos.

Buscando reorganizar os pensamentos, observou as sardas que ela tinha no nariz e as covinhas que se formavam quando ela sorria entretida com a história, como ela conseguia se perder facilmente nas paginas de um livro ele jamais entenderia, nem os seus rompantes e mudanças de humor e muito menos como ela havia se tornado alguém tão especial em sua vida. Respirou fundo mas quando pensou estar pronto defrontou-se com um olhar inquisidor e novamente as palavras se perderam...

Caminhavam pela rua lentamente, cada um perdido em seus próprios pensamentos, mas no mesmo andar compassado de duas pessoas acostumadas a caminhar juntos, ela queria fazer milhares de perguntas, sobre as decisões que ele tomara e principalmente que lhe explicasse como seria viver sem ele, sem as horas de conversa e o riso fácil, sem o abraço perfeito e as brigas pela última bala do pacote. Mas mesmo que fizesse todas essas perguntas e muitas mais, no fundo sabia que não haveria respostas suficiente para a tristeza da separação, ele decidira partir e isso era irremediável.

No dia da partida ele passou na casa dela, não era muito bom com despedidas e por mais que ela tivesse insistido em fazer uma festa ou de levá-lo até a rodoviária ele convenceu que a melhor despedida seria terem um momento só deles como os muitos que haviam compartilhado ao longo dos anos. Passaram a manhã toda conversando e ouvindo música, evitaram ao máximo a estranheza de que a partir do dia seguinte não teriam um momento como esse por tempo indeterminado ou talvez, nunca mais.


Ela estava deitada e o sol entrava pela janela, já era tarde, ela sabia, mesmo assim pesos invisíveis faziam com que fosse impossível levantar-se da cama. Mantinha os olhos fechados, mas por de trás deles um turbilhão de pensamentos trespassava-lhe a mente, eram questões que precisavam de uma resposta, coisas que deveria estar fazendo naquele momento, coisas que havia esquecido de fazer, pessoas que queria ver e que certamente faria bem ela ver naquele momento, lembranças da semana, lembranças de anos passados, pensamentos, sentimentos e sensações, saltavam de um para outro fazendo associações que conscientemente seria impossível de fazer, a mente é um lugar estranho.
Finalmente respirou fundo e abriu os olhos, primeiro viu o teto pintado de branco, sabia que deveria olhar para o relógio, mas era mais agradável encarar o teto, reuniu coragem e lentamente virou a cabeça em direção ao relógio que ficava na comoda do outro lado do quarto, mas ao invés de ver a hora, viu números desconexos piscando, sinal de que a luz havia acabado em algum momento entre as incontáveis horas que estava na cama. Já que não sabia que horas eram, decidiu que não se preocuparia e tornou a fechar os olhos. Agora podia ver os pensamentos como fotos sendo passadas muito rapidamente, de certa forma chegavam a ser engraçados.
Acordou assustada, tinha ouvido alguma coisa, a claridade alaranjada da luz da rua entrava pelas frestas da janela, da mesma forma que o sol havia entrado, não se lembrava de ter visto anoitecer, prendeu a respiração tentando encontrar o som que a acordara, mas só ouviu sons longínquos, claro, quando se mora numa casa imensa, sozinha que sons poderiam haver? Mesmo assim podia jurar que tinha ouvido passos...
Levantou da cama devagar, esperou os olhos acostumarem com a penumbra e caminhou até a porta, girou a maçaneta tentando não fazer barulho e prosseguiu até a cozinha, pé ante pé atravessando o corredor, atenta a qualquer outro barulho, a pilha de louça suja era imensa e toda a bagunça continuava no mesmo lugar, abriu a geladeira e pegou uma lata de refrigerante tomou metade, encostada na pia e depois largou em cima da mesa do corredor quando voltava para o quarto.
Não queria voltar a dormir, talvez pelas horas excedentes de sono ou apenas pela inquietante sensação de solidão que se apoderava dela centímetro por centímetro, decidiu ouvir música, o silêncio mostrava-se perturbador demais. Colocou os fones no ouvido e aumentou o volume até o último, infelizmente, com as músicas vieram as lembranças e com as lembranças vieram as lágrimas, imagens do passado e do futuro se fundiam, planos que jamais seriam concretizados e doces lembranças (quase) esquecidas. Ficou jogada na cama, sendo arrastada lentamente para o turbilhão de sentimentos do qual estava fugindo há dias, mas finalmente percebeu que é impossível fugir de si mesmo.


Sinto um vazio tão grande, na verdade ele é do tamanho de uma peça de quebra-cabeça, aquela pecinha que você perdeu e não consegue encontrar pra terminar o quebra-cabeça, e fica um buraco no meio da imagem, mas parece que esse buraco tão pequeno vai crescendo e consumindo tudo em volta, é amedrontador, e pior, é parte de mim... Parece que ele vai substituindo aos poucos os pedaços que compõem meu ser, de dentro para fora, ao ponto em que não sei mais quem sou. Sei que estamos sempre em mutação (esa es mi naturaleza), me sinto telespectadora de mim. Sei o quão estranho é , mas é muito difícil sentir que sou responsável pelas coisas que sinto.

Imagine que você está lendo um livro, se identifica muito com o protagonista, fica nervoso junto com ele, ri junto com ele, fica triste e sempre compreende bem o que ele sente, mas os sentimentos dele não são os seus de verdade, é basicamente isso, é como se eu estivesse amortecida, vendo os sentimentos e pensamentos de outra pessoa, até me dar conta de que são meus pensamentos, meus sentimentos...

Nem ao menos sei quando foi a última vez que senti algo que me tomou por inteira, que fizesse sentir meu peito inflando e explodindo de emoção, que fizesse meus pés saírem do chão, nos últimos tempos tudo vem por trás de uma cortina de fumaça, mas a pior parte é que parece que tudo está no lugar e apenas eu estou fora do quebra-cabeça.



Eu tenho tanta coisa para te dizer, mas não sei como, não sou corajosa ao ponto de me expor completamente para você, até porque nós dois já vimos que nosso sentimentos são conflituosos e que na hora da sinceridade só machucamos a nós mesmos. Ainda assim, construímos uma história juntos e mesmo daqui a séculos, você terá feito parte da minha vida, sei que seguiremos estradas diferentes (sim eu sempre penso na vida como uma estrada, é mais fácil pra mim) e sei que já começamos a fazer isso, inevitável depois de tantas tribulações...

Mas eu realmente queira que você soubesse, que você mora em meu coração, e que sempre lembro de você em minhas orações (por um longo tempo eu apenas pedia pra encontrar uma forma de superar a mágoa que eu estava sentindo, mas agora simplesmente peço que seu caminho seja guiado), e que todo aquele sentimento negativo que eu sentia foi ofuscado pelo carinho que sempre senti por você.

Eu queria poder pedir desculpas, assim sei que você se sentiria melhor em relação a mim, mas sou incapaz de pedir desculpas sem me arrepender de verdade e não me sinto arrependida de nada, talvez tenha me excedido em algum momento, mas todas as outras atitudes não foram partes do meu comportamento habitual e eu não mudaria isso, e naquele momento eu realmente acreditava que você estava errado e eu dona da razão, mas como a vida é engraçada vi inúmeras situações e não acho que eu não era a pessoa apropriada para definir quem estava certo ou errado.

No momento o que me dói mais é a saudade que sinto da sua presença, como pode fazer falta o jeito como você chama meu nome ou o seu abraço, nem mesmo sei o que eu sentiria se te abraçasse agora, talvez eu não conseguisse retribuir ou se algo dentro de mim irá desmoronar, mas já aprendi a conviver sem você e sei que sobreviverei e seguirei minha estrada, afinal a vida é assim, pessoas entrando e saindo de sua vida quando você menos espera e algumas vezes se perde pessoas incríveis e outras se ganham companheiros para vida toda.

Sei que nossa história não acabou, mesmo distante temos laços e se você puxar a ponta que nos une sei que irei retribuir, mas se eu não tiver uma segunda chance, queria que você soubesse de toda essa confusão sentimental que sinto por você e que quando precisar e vou estar aqui (caso você lembre de mim), mas por enquanto estou mais ocupada com as pessoas que realmente precisam de mim....


A claridade estava me incomodando com certeza já passava das onze horas e eu deveria estar de pé a muito tempo, senti a cabeça latejar e quando abri os olhos, senti que estavam sensíveis, então tudo veio numa torrente e por um minuto desejei que tudo aquilo tivesse sido um sonho, parecia tão irreal, e as lágrimas voltaram aos meus olhos, lágrimas amargas que continham toda a dor do meu coração.

Uma parte de mim me culpava, me xingava, me agredia de todas as formas possíveis e a outra parte apenas se encolhia, eu sabia que tinha feito todas as escolhas, eu sabia que a culpa era minha, mas ver todo o rastro da felicidade ser atropelado, dizimado, acabou comigo. A aliança ainda estava no meu dedo, não tive coragem (ou força?) de tirá-la e em segundos pude ver tudo, desde o nosso primeiro encontro até nosso último beijo, salgado de lágrimas e tristeza.

Fazia tempo que eu não me sentia tão só, um vazio tão grande se apoderou de mim e a única coisa que tive forças para fazer foi continuar imóvel, mas as lágrimas ainda rolavam soltas e por mais que doesse, por pior que eu me sentisse eu tinha que levantar. Mas naquele momento o que eu queria era sair correndo e te encontrar, mesmo com os olhos inchados e o cabelo bagunçado, mas querer não é poder e minhas pernas não estavam fortes o suficiente pra chegar até você.
Eu não podia fazer isso, seria a prova da minha fraqueza, e eu fiz tudo isso por você, já não podia suportar ver a tristeza nos seus olhos e a reprovação na sua voz, não quando o que eu queria era a sua felicidade. Nunca pensei que chegaríamos nesse fatídico dia, que eu teria que escolher se nossos caminhos tão encruzilhados iriam finalmente se separar, a pior parte é que eu escolhi.

Agora sem você eu teria que me acostumar com o tempo vago, com o celular mais silencioso, com a falta que faria o seu abraço, e por mais que o "não" tivesse escapado da minha boca, a dor era maior do que pensei suportar. E foi assim que cheguei ao fim daquele fatídico dia, um inconfundível gosto de fel na boca, tão amargo quantos os sentimentos, levantando da cama apenas quando necessário e passando mais uma noite em claro.

A primeira vez que me dei conta que nem tudo pode durar para sempre, agora era hora de virar a página, não seria como um recomeço porque não houvera pausa, seria a continuidade, as lembranças seriam guardadas em um local onde não doesse tanto e um dia, um dia eu estaria pronta e disposta a refazer tudo de novo.


Sentimentos sempre são difíceis de definir, talvez por serem tão irracionais, a parte racional humana não consiga entendê-los para poder defini-los da forma certa, ou seja, só sentindo para entender...

Amizade, uma palavra como tantas outras, mas que trás muitos significados. Um sentimento tão bonito, a amizade é um tipo de amor, com direito a brigas, ciúmes, muitas risadas, conversas sérias...

Algumas pessoas pensam que a amizade só serve para a diversão, mas na verdade sempre será nos momentos de maior dificuldade que você saberá que aquele é um amigo de verdade.
Eu acredito que as amizades devem durar a vida inteira, mesmo que o amigo esteja longe, que vocês parem de se ver com tanta frequência, você vai procurar ter uma notícia que seja do seu amigo...

Nos últimos anos eu descobri como é fácil fazer amigos de verdade, amigos com quem eu possa contar seja a hora que for, amigos que sabem dar bons e maus conselhos, pessoas que realmente vieram iluminar a minha vida... Nem todas as pessoas que se aproximam de você são amigos, por isso não é tão fácil assim, mas vale a pena...
Amigos pra uma vida inteira, aqueles que deixaram marcas indeléveis no meu coração. Pode ser piegas e tudo o mais, mas eu amo muito essas pessoas e quando elas lerem isso saberão que escrevi pra elas. [;)]
A verdade é que eu tive muita sorte pelas pessoas que encontrei no meu caminho, eles me ajudaram a passar por momentos difíceis, rir quando eu já estava prestes a desistir de tudo, chorar de saudade antecipada, mas principalmente aproveitamos cada minuto juntos, nos divertimos, cantando, brincando, dançando, tocando ou o que desse na cabeça...

Mas a minha sorte não para por aí, pois cada dia que passa conheço mais pessoas incríveis e faço novos amigos, novas amizade para vida inteira...

Mas que os meus amigos estejam avisados, estão sujeitos a muito ciúmes e muita manha! rsrsrs


Uma pequena demonstração do meu carinho por pessoas que realmente são muito importantes pra mim!