Ela não se considerava romântica, não esperava receber flores e bombons ou que ele sempre abrisse a porta do carro, mas aos poucos foi descobrindo que o romantismo pode estar no carinho e no respeito que ele demonstrava num abraço ou naquela forma tão única que ele tinha de fazer seus corpos se encaixarem perfeitamente... Ela se pegou relembrando seus relacionamentos anteriores e (mesmo achando errado) se viu comparando, apenas para constatar que ele foi o único que fazia com que ela sentisse o mundo se encaixar... Talvez fosse isso afinal, ele sabia fazer as coisas se encaixarem, sabia fazer seu mundo parecer seguro e completo, passou o resto do dia imersa nesses pensamentos, imersa nas lembranças...
Lembrou-se daquela primeira noite, o sono demorou a vir e as imagens rodavam em sua mente, as sensações recém vividas ainda percorriam por seu corpo, como se cada simples toque queimasse em sua pele. Só de lembrar do momento em que seus lábios de encontraram pela primeira vez sentia algo se agitar dentro de si enquanto sua pulsação acelerava, começou a recordar os acontecimentos do dia. Ela tinha certeza que cada segundo ficaria sempre gravado em sua mente, podia reviver quadro a quadro o melhor dia de sua vida, onde mundo não poderia estar mais belo...Ele não era o típico playboyzinho, nem o rebelde sem causa e nem de longe se pareceria com um mocinho do cinema, ele era um cara normal, desses que não chamam muita atenção e parecem que nunca fizeram nada de extraordinário, mas que trabalham e estudam mesmo que ainda não saibam onde vão parar... Nisso eles eram parecidos, mas na maioria das coisas eram contrários, talvez até contraditórios, havia momentos em que ela deixava o silêncio preencher o espaço entre eles, simplesmente não sabia o que dizer, tinha medo de parecer tola demais, a verdade é que nunca foi muito boa em puxar assunto, mesmo assim a companhia dele era acolhedora e só de estar perto dele ela se sentia completa, muitos dizem que os opostos se atraem mas ela descobriu que às vezes você precisa de alguém que te complete.
Depois de muitas reflexões decidiu parar de pensar em tudo aquilo, geralmente quando pensava demais em algo as coisas costumavam dar errado, então parou de pensar e deixo apenas que os sentimentos tomassem conta de si. Percebeu que estava apaixonada e sabia que naquela altura era irremediável, mas o que tem demais em esquecer um pouco dos problemas diários dentro de um abraço que fazia o mundo parecer mais correto? Qual o problema de ter um sorriso acolhedor? Nenhum. Na verdade quando alguém te completa, todos os problemas desaparecem.
Ela notou que ele tinha o sorriso mais bonito da cidade e o senso de humor de um comediante de quinta categoria, mesmo assim ria de suas piadas ruins, ele é do tipo que realmente se preocupa quando ela diz que tudo está uma droga e que quer fazer o mundo dela cada dia mais bonito... Então ela notou que estava presa num grande clichê, como se a sua grande história de amor fosse mais um filme da sessão da tarde, mas ela não se importou nem um pouco, quis mesmo aproveitar cada segundo do brilho no olhar ao cafuné, não quis se privar da felicidade de ter alguém que a fizesse sentir borboletas no estômago.
Quando chegava ao
fundo do abismo ela já sabia o que aconteceria como um roteiro antigo que você
decora depois de muitas repetições, primeiro os pensamentos se acumulam e tudo
fica cada vez mais confuso, em seguida vem o que ela apelidou de lama, sentia como
se todas as coisas ruins presentes nela surgissem em forma pegajosa e grudassem
em sua pele, ela se sentia imunda, o pior de todos os seres como se
absolutamente tudo nela fosse feito de maldade...
As palavras estavam presas na garganta dele, sufocando-o, claro que algumas frases soltas escapavam pela garganta e alcançavam os olhos e o pior é a certeza que ela podia compreender tudo o que estava lhe afligindo, passou aquelas últimas horas reunindo coragem para olhar no fundo dos olhos dela e falar absolutamente tudo que havia planejado durante semanas, mas como sempre acontecia sentiu-se desarmar pela franqueza daqueles olhos castanhos.
Buscando reorganizar os pensamentos, observou as sardas que ela tinha no nariz e as covinhas que se formavam quando ela sorria entretida com a história, como ela conseguia se perder facilmente nas paginas de um livro ele jamais entenderia, nem os seus rompantes e mudanças de humor e muito menos como ela havia se tornado alguém tão especial em sua vida. Respirou fundo mas quando pensou estar pronto defrontou-se com um olhar inquisidor e novamente as palavras se perderam...
Caminhavam pela rua lentamente, cada um perdido em seus próprios pensamentos, mas no mesmo andar compassado de duas pessoas acostumadas a caminhar juntos, ela queria fazer milhares de perguntas, sobre as decisões que ele tomara e principalmente que lhe explicasse como seria viver sem ele, sem as horas de conversa e o riso fácil, sem o abraço perfeito e as brigas pela última bala do pacote. Mas mesmo que fizesse todas essas perguntas e muitas mais, no fundo sabia que não haveria respostas suficiente para a tristeza da separação, ele decidira partir e isso era irremediável.
No dia da partida ele passou na casa dela, não era muito bom com despedidas e por mais que ela tivesse insistido em fazer uma festa ou de levá-lo até a rodoviária ele convenceu que a melhor despedida seria terem um momento só deles como os muitos que haviam compartilhado ao longo dos anos. Passaram a manhã toda conversando e ouvindo música, evitaram ao máximo a estranheza de que a partir do dia seguinte não teriam um momento como esse por tempo indeterminado ou talvez, nunca mais.
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"Eu vejo um horizonte trêmulo Eu tenho os olhos úmidos Eu posso estar completamente enganado Eu posso estar correndo pro lado errado" |
O conjunto da cena o acalmava, pois gostava de frio, isso o ajudava a abraça-la para se aquecerem, o vento que batia em ambos era gelado e fraco, fazendo com que se abraçassem mais fortes, havia poucas pessoas ao redor, então não tinha quem os atrapalhasse de se beijarem, mas sua insegurança era imensa, não sabia se aquilo era certo ou errado, não sabia o que viria depois que se beijassem, se continuaria gostando dela, ou se era só uma paixão momentânea.
Inevitável, era exatamente isso que ele queria, se apaixonar por ela, e juntos ficarem para todo o sempre,em meio suas palavras malucas e confusas ele pensou, ela era sua alma gemea, mesmo ele não acreditando nesses mitos, ele sentia que alguma coisa de especial havia entre os dois, e que a partir daquele momento sua vida tomaria outro rumo. Então o momento tão esperado e inesperado ao mesmo tempo chegou, agora era tarde para fazer qualquer outra coisa, seus olhos fixaram-se um ao outro e vagarosamente se aproximaram.
Uma simples frase.
Uma troca de olhares cúmplices.
Estava frio, mas essa era a última coisa que a preocupava, apesar do vento gelado, o calor que emanava do corpo dele era o suficiente para que ela se sentisse bem. Já não tinha certeza de quanto tempo estavam ali, ele com o braço ao redor dela protegendo-a do frio e ela com a cabeça encostada no peito dele, deixando-se proteger.
Ele falava mais que ela, ela estava preocupada em gravar cada detalhe de tudo. Desfrutava do contato físico que mantinham e se embriagava no perfume dele, ouvia sua voz e às vezes respondia, mesmo quando não prestava atenção no que ele falava. Não podiam estar num lugar melhor, apesar da praça movimentada e dos barulhos típicos de cidade grande, ela ainda podia distinguir o som do vento nas árvores e as folhas rolando pelo chão.
Talvez tenha sido isso, o conjunto da cena, somados ao carinho que emanava de cada toque dele, tudo parecendo tão impossível, e no entanto, estavam ali. Em sua cabeça ela via milhões de possibilidades que tornavam tudo extremamente simples e ao mesmo tempo imensamente complicado, a tensão e a expectativa lhe corroíam, será que estava pronta para dar o próximo passo?
Sim, ela sabia que no instante em que seus lábios tocassem os dele, entraria num caminho sem volta, isso fazia uma luz vermelha piscar dentro de sua cabeça, mas ao mesmo tempo ela queria ultrapassar aquele limite e podia sentir isso em todas as células de seu corpo. Ela sabia que era inevitável.
Uma simples frase.
Uma troca de olhares cúmplices.
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| "De repente, não mais que de repente, as coisas se tornaram mais fáceis, mesmo sendo difíceis, mais alegres, nos momentos mais tristes..." |
As nuvens pareciam de algodão, o que dava mais vontade de tocá-las. Simplesmente olhá-las não bastava, não era o suficiente, o clima idílico do momento a envolvia, sentia cada molécula do seu corpo envolta, presa naquela fração de minuto. E o sonho de um final de semana acabava, era hora de voltar pra casa, pros problemas e pra rotina, mas ela levava na bagagem bem mais que recordações, momentos inesquecíveis, ela levava uma nova forma de ver a vida.
Há algum tempo ela se sentia perdida, tinha esquecido os motivos que lhe davam forças, o que fazia com que levantasse da cama todo dia, simplesmente sentia que tudo perdia o sentido, "porque continuar?" era a pergunta que ecoava em sua mente todo santo dia, tantas dúvidas, tanto sofrimento, tanta tristeza acumulada... A parte mais triste era que a menina já não tinha sonhos, tudo lhe parecia indiferente, cinza e sem graça...
Mas então veio o tal final de semana, aquele de que muito lhe falaram, e apesar de todos os impecílios ela foi, afinal poderia ser divertido. Mas, oque ela não sabia era que não estava preparada para sentir tudo o que sentiu, as pessoas nunca estão preparadas, essa é a verdade.
Agora, depois de tudo, ela sentia como se cada parte de si estivesse de volta no lugar, como se durante todo aquele tempo o mundo estivesse girando ao contrário, mas agora as coisas voltavam ao eixo.
Ela sentiu coisas que nem imaginava que poderia sentir, coisas que mudaram sua vida e que fez com que ela quisesse mudar também...
Pela janela do ônibus ela via a paisagem passando, pouco a pouco o campo deu lugar a tão conhecida cidade, mas ela se surpreendeu, como tudo estava mais iluminado, brilhante, fascinante, será que ela mudara tanto assim?..
"Voltara a sentir uma alegria que antes lhe era constante, voltara a sorrir sem motivos aparentes e a sentir que apesar de tudo um sorriso basta para o dia ser perfeito, as coisas mais simples se tornaram as mais fantásticas."
Ela seguia caminhando, apesar do vento frio que bagunçava seus cabelos. Naquele momento ela queria não ter esquecido o cachecol, não ter esquecido a bolsa, não ter escutado tudo aquilo. Já havia perdido a noção de tempo.
Andar, andar, andar, o pensamento se repetia na cabeça dela, afastando todos os outros, afastando as lembranças, os problemas, enfim tudo.
Ela sabia que não poderia continuar por muito tempo, mesmo assim não parava, sentia que o nó na garganta se apertava a cada segundo, tornando ainda mais difícil respirar.
De repente, numa simples distração, sua mente foi tomada pelo turbilhão de lembranças e emoções, ela estancou, não podia dar nem mais um passo, inevitávelmente as lágrimas rolaram pelo seu rosto.
















